sexta-feira, 14 dezembro, 2018

Lenya e Adler – parte final.

Arabel não sabia dizer o quanto desceram. Somente soube que estava no fim quando viu luzes fracas vindo debaixo do antigo elevador. Com um estalo e solavanco, chegaram ao fundo. Sorush deixou o desacordado Saris aos cuidados de Arabel e abriu o elevador.

O corredor era quase totalmente escuro se não fosse umas luzes amarelas nos cantos das paredes. Tais paredes eram antigas, escavadas na própria rocha, e se alongavam em um corredor que não se conseguia ver o fim.

Por um momento Sorush parece ter farejado o ar.

– Arabel, espere aqui com Saris. Vou ver como estão as coisas…os preparativos.

– Preparativos? “Coisas”? Do que você está falando Sorush?

– Acalme-se Elohin…tudo está bem…está segura aqui. – sorriu divertindo-se.

– Não é o lugar que me preocupa Sorush. Já estive em lugares e planos que faria muitos celestes enlouquecerem somente de olhar. Estive na aurora do tempo e no nascimento do inferno, assim como você…um Hashmalin. São seus métodos que me preocupam, não um corredor escuro na Haled.

Sorush se afasta de costas pelo corredor ainda com um sorriso no rosto.

– Conheço bem a coragem de sua casta. Desafiou os grandes em prol dos humanos. Garanto à você que não farei nada além do necessário, a propósito…- falou Sorush quase sendo engolido pelas sombras do corredor – …quem disse que estamos na Haled?

Arabel sente um arrepio ao olhar que as sombras que abraçam Sorush mais parecem mãos e braços, abraçando o Hashmalin, convidando para as trevas. poderia jurar ter vistos rostos nas sombras, sorrindo para ela de forma maliciosa, enquanto acariciavam e puxavam delicadamente Sorush.

A Elohin engoliu em seco. Olhou ao seu redor e expandiu sua aura pulsante e seus sentidos angelicais. Os Elohins são conhecidos por estarem bem ligados às estruturas do universo. No passado distante eram responsáveis por dar forma e arquitetura ao cosmo. Com isso eles conseguem estar bem atenuados aos planos e suas complexidades. Sendo assim Arabel percebeu que estava em um pequeno vértice, não maior que um andar desta casa. Sentiu a aura de Sorush mais adiante…e de mais coisas também que preferiu não se aprofundar. Mas o que chamou a atenção dela foram as duas almas que estavam ali. Haviam humanos neste vértice!

Gritos. Gritos de alguém na escuridão tirou a concentração de Arabel. Não era Sorush. Era um dos humanos!

Arabel acomodou gentilmente Saris no chão. Se concentrou em sua aura e suas asas brancas apareceram. A luz que emanava da Elohin era tão forte que fez as sombras recuarem para as frestas e cantos da parede enquanto ela avançava confiante pelo corredor. Ao final ela vê uma porta, de madeira rústica, e antes que ela possa abrir, a porta se escancara. Arabel se vê diante de uma figura grotesca, que parece ser humana sim, mas suas proporções são enormes. É uma figura masculina vestindo um jaleco sujo, luvas grossas de borracha e botas que ela jura ver um símbolo da animação”Carros” da Disney colado nelas. O corpanzil termina em uma minúscula cabeça de um homem com feições abobalhadas, notadamente possuindo algum retardo mental, com um pirulito na boca. A figura parece estar carregando um outro humano adulto, muito menor que ele, também homem. Possui as roupas de um paciente hospitalar, tem sua cabeça raspada com manchas rocheadas nas têmporas e babando muito. A grotesca criatura tira o pirulito da boca, analizando Arabel em seu caminho, sem muito saber o que fazer.

– Doutôôô! Gugu achou uma moça-piriquito brilhante no corredor! Não é mentira não! Gugu tá falando a verdade!

– Claro Gugu…- Arabel ouve a voz de Sorush que vem do cômodo a seguir -…ela é amiga minha. Você achou ela legal?

Gugu encarou bem de perto Arabel, que estava à postos para se defender, mas alguma coisa no gigante despertava sua compaixão e pena.

– Siiiiimmm Doutô! Gugu acha mulher-passarinho brilhante muito bonita! – sorriu debilmente.

– Então deixe-a entrar Gugu. E vá colocar nosso amigo Dentão na caminha dele. Com carinho, ouviu Gugu?

Fazendo um muxoxo o Gigante se apertou e passou por Arabel, colocando o pirulito de volta na boca.

– Tááá boooom! “Slurp”

Ainda em choque, Arabel entra na sala, que mais parece uma câmara de experiências, um laboratório, mas com mecanismos e apetrechos que não faziam o menor sentido estético e funcional, parecendo vir direto de um dos filmes de terror de antigamente.

Sorush estava desligando um monitor de TV e limpando as mãos em um pano com suas mangas arregaçadas. Na frente dele estava um frasco com algum tipo de fumaça azulada brilhante dentro e ao lado uma cadeira que lembrava aquelas que encontramos em barbearia antiga.

– Pelos Sete Céus Sorush!!! O que é isso tudo?! O que você está fazendo com aqueles humanos?! Que espécie de m..

Sorush a olha direto nos olhos com seus olhos enegrecidos.

– Monstro, você ia dizer? Sou o da pior espécie, Arabel! Sou aquele monstro que mantém todos os outros afastados! Sou aquele monstro que suja as mãos para que as belas criaturas possam voar com suas belas asas brancas! Sou aquele monstro que ninguém gosta de ter por perto, mas é necessário!!

E antes que pudessem continuar a discussão, eles sentem um arrepio e a seguir um abalo no tecido da realidade tão grande, que ambos caem ao solo.

– Haled! Está indo para Haled! – afirma Arabel assustada.

– Onde está Saris? Cuide dele que vou investigar!

Em disparada, como se as sombras o carregassem, Sorush avança pelo caminho de volta. Invocando suas sombrias asas passa pelo buraco do elevador, saindo na dispensa da antiga casa. Quando avança pelo corredor, ele ouve um som de trombeta muito forte ao ponto de quebrar vidraças, janelas e espelhos da casa. Sorush leva as mãos aos ouvidos e percebe sangue. Ignorando a dor, ele sai pela porta principal que leva ao jardim do estacionamento e lá vê, em uma pequena cratera, uma figura armadurada, toda em prata. Sua aura pulsante é poderosíssima e hostil. É um anjo do Senhor, um querubim. Sorush o viu levantar e contemplou o símbolo das espadas cruzadas do centésimo primeiro batalhão celeste no peitoral de prata do celeste. Ele sabia quem era e, infelizmente, não era uma boa coisa.

– Baturiel, o Honrado… – balbuciou baixo para si.

Uma voz trovejante vem da fenda de luz prateada de Baturiel, de onde seria seu rosto.

– ONDE ESTÁ AZAFAH?! ONDE ESTÁ SARIS?!

 

XXXXXXX FIM XXXXXXXXX

 

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