sexta-feira, 14 dezembro, 2018

Jorge – parte 2

 

“Desculpe… está muito além de você…”

Shoftiel acorda mais uma vez com essas palavras ecoando em sua mente, porém desta vez, ele desperta. Seus sentidos de querubim se acionam instantaneamente. O local onde se encontra é um quarto luxuoso e iluminado por pérolas azuis em conchas artesanais postas nas paredes. Este é circular, de 8 metros de raio, possuindo espelhos de prata e objetos de arte com temas marinhos. Ele sabe que se encontra a 223 metros abaixo do nível do mar, em um vértice da Haled com o plano astral. Detectou cheiros de frutas, peixe, sal…e um cheiro de essências e feminilidade que se aproxima.

O querubin se põe de pé. Uma dor lancinante em seu peito quase o derruba novamente. Da armação da cama ele arranca umas das partes, improvisando um porrete. Gracioso como um felino, ele salta para o fundo do quarto em cima de um espelho grande, se equilibrando perfeitamente em uma área impossível para tal.

A porta se abre, e uma belíssima criatura adentra. Seus cabelos negros, ao ponto de não possuir reflexos, armados em enfeites bem feitos. Sua pele alva-azulada é delicada. Seus contornos formosos são parcialmente cobertos pelo leve e solto vestido verde. É Serena, a Mãe D’água.

–  Ora, ora… onde será que está o meu sirizinho…se escondeu na toca? – sorriu Serena, olhando de rabo de olho por todo o quarto.

Mirou a figura. Shoftiel decidiu atacar primeiro e perguntar depois, e na hora que foi atacar, sentiu um arrepio na espinha que o fez parar. Uma sombra que se assemelhava a da figura no quarto estava perto dele como se fosse tocá-lo.

“Perigo!” – gritou seu corpo e instintos. Com um salto se esquivou do toque sombrio e caiu de forma estratégica em relação à fêmea.

– Aí está você! – riu divertidamente Serena – acalme-se “meu anjo”, você é meu convidado aqui. Não tem nada a temer.

– Quem é você? – perguntou o querubim sem deixar de apontar o porrete para Serena.

Ela caminhou até um dos espelhos e sorriu vaidosamente ao seu reflexo.

– Tenho alguns nomes, celeste. Sou a senhora de Mar Profundo, a filha da Estrela de Prata, a Última Pérola, a Mãe D’água. Mas pode me chamar de Serena. Pronto, agora já sabe quem sou, que tal me retribuir a gentileza… começando por abaixar este sua…errr…arma – sorriu na direção de Shoftiel.

O querubim mede a figura a sua frente. Lentamente baixa a guarda, mas sem tirar os olhos de Serena.

– Viu? Não tem o porquê de se preocupar. Encontramos você as beiras da morte, mas um de meus filhos o viu e nos avisou. Poderia saber seu nome, celeste?

– Shoftiel…onde estou? – respondeu o querubim de forma cautelosa.

– Hmmm….Shoftiel. Um celeste que, pelo físico terreno, um querubim, acertei? Você está em meu reino, Mar Profundo.

Shoftiel pensou: “Mar Profundo…um local de vértice e estes são seres etéreos. Um povo do mar onírico.”

– Serena, eu preciso saber, quanto tempo estou aqui? Eu tenho… deveres a cumprir. Logo…

Serena graciosamente se move na direção do querubim. Os olhos penetrantes da Mãe D’água olham os de Shoftiel. Por um momento o querubim parece relaxar e perceber o quão bela é Serena. As coisas perdem tanta urgência, e só o fato de estar com ela é reconfortante.

– Você está aqui há três dias, Shoftiel. Mas acabaste de acordar… – maliciosamente ela passa a mão sedosa pelo peito ferido do querubim – …e ainda não se recuperou. Fique mais um pouco. Desfrute de minha casa e em troca me dê um pouco de companhia, gostaria saber mais de você. Deve ter histórias incríveis de batalhas e glórias. Está com sede, querido?

Serena se move até o móvel com bebidas. E começa a servir duas taças.

– Sim… eu acho… algumas calorias viriam bem ao meu corpo. Posso ficar um pouco mais… com você.

Serena ri e começa a cantar uma canção. Uma canção sobre marinheiros que se apaixonam e acabam com suas embarcações no fundo do mar.

FIM.

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