sexta-feira, 14 dezembro, 2018

Lenya e Adler – Parte 1

 

“Urgência!”

Era pensamento que assolava a mente de Arabel.

Em alta velocidade, Sorush dirigia o carro de Jorge, concentrado em sua tarefa. Arabel no banco detrás apoiava Saris em seu colo, desacordado. Ela não sentia a aura pulsante dele.

– Tem certeza que não podemos ir voando pelo Astral, Sorush? Chegaríamos muito mais rápido!

Pelo retrovisor, Sorush lança um olhar sério de relance à Arabel.

– Não seria aconselhável. Toda esta comoção abalou muito o tecido da realidade. Todas as vias não convencionais estarão vigiadas. Não podemos perder mais um.

“Jorge. Shoftiel…”

Arabel sente um aperto no coração. Não sentiam mais a presença do companheiro querubim, e após a revelação de traição do capitão querubim Azafah, temia pelo pior.

Como por instinto, o Hashmalim percebe os sentimentos de sua companheira.

– Não se preocupe Arabel. Confio em Zazriel e Poiel. Eles vão encontrar Shoftiel custe o que custar! – responde com firmeza, mas em sua mente, sem tanta certeza.

Depois de minutos, o carro sobe a serra em direção a Petrópolis, onde fica o santuário e um dos laboratórios de Sorush. Arabel olha para o rosto de Saris, inerte. Sua aura, antes acolhedora, brilhante, agora está ausente, refletindo em cores escuras nas vestes de seu avatar, antes brancas como as nuvens. Arabel olha pela janela e vê que estão agora em uma estrada de terra, mais afastada das vias pincipais.

– Onde estamos indo? Pensei que você tinha dito seu consultório.

– Aqui é meu verdadeiro consultório, Elohim. – responde com um sorriso quase maldoso no rosto.

Arabel vê que chegaram à uma residência antiga, com arquitetura da época imperial. Lembra bem desta época, mais precisamente do pós-império, quando o Rio de Janeiro já era a capital da recém proclamada república. A residência ficava próxima à antiga Estrada Real. Quando exploradores descobriam as minas de ouro em Minas Gerais, a viagem até a capital com as cargas demoravam até cem dias para chegar, porque faziam o longo caminho por São Paulo através da Serra do Mar, passando por Paraty, até chegar ao Rio de Janeiro. Por causa dos caminhos abertos por bandeirantes, descobriu-se um caminho mais rápido pela Serra da Estrela, o que diminuía o caminho em trinta dias. Arabel se lembrava bem, pois acompanhava nesta época imigrantes que tentavam a sorte pela corrida do ouro e se aventuravam por este perigoso novo caminho e também protegia os índios da tribo Coroados da região, em constantes conflitos com os viajantes.

Sorush estacionou o carro em um estacionamento ao ar livre, o mais próximo possível da grande casa. Saiu e logo tratou de ajudar Arabel a carregar Saris para dentro. Apesar de magro e altura mediana, Saris era estranhamente pesado para alguém de sua estatura e constituição.

Arabel viu passarem por salas e saletas de decoração antiga e não usada. Lençóis brancos envolviam os móveis e a poeira se acumulava nos cantos. O ar era abafado e viciado. Quando ela pensava que nunca iria terminar a dança de cômodos, eles chegam à cozinha e de lá à uma despensa. Na abafada câmara Sorush abre uma caixa de luz e lá se consegue ver uma entrada de chave. Sorush pega do bolso um molho de chaves de diversos formatos, e pegando uma sem pensar muito, encaixa na fechadura e gira. Uma luz vermelha acende de uma pequena lâmpada na caixa de luz. Arabel ouve uma vibração de motores funcionando e do canto no fundo da dispensa um alçapão se abre e um elevador rústico aparece de uma passagem no chão. Sorush abre as correntes de segurança da entrada do elevador e olha para Arabel, em um convite claro para ela entrar.

– Não tenha medo Arabel, estaremos seguros aqui. Pedi ajuda de meus ajudantes que já nos aguardam. Estão preparando o meu local. – afirma Sorush, tentando tranquilizar a companheira celeste.

Arabel sente um calafrio. Por um momento lembrou qual era a casta de Sorush. Ele era um hashmalim, um anjo que permeava a dor e as trevas.

– Que lugar é esse Sorush? – perguntou desconfiada.

Fechando as correntes atrás deles, Sorush de forma soturna responde.

– É meu santuário, querida Arabel. Nem todos os anjos de nosso Pai vivem lá em cima, no Céu. Corajosos são os anjos do Senhor que descem das nuvens em suas armaduras e espadas douradas, com suas belas asas brancas para combater o mal. Porém, é nas entranhas da escuridão que, nós Hashmalins, cuidamos para que isso não seja necessário.

E com um toque em um controle de botões, Sorush faz o rústico elevador descer em direção à escuridão ao som dos ruídos do maquinário e dos motores do mesmo.

 

Continua…

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