sexta-feira, 14 dezembro, 2018
“Infelizmente não posso te proteger, minha criança. Agora é hora de aceitar quem você é e lidar com isso. Mas não pense que eu te deixaria sem nenhum zelo, largada por aí…”
·Bába Ioana Anghel·

E finalmente havíamos vencido uma batalha decisiva. Estávamos exaustos, suados, sujos, dentro do carro, compartilhando um dos cigarros “mágicos” do Derek. Depois de tanta porrada eu merecia um momento de relaxamento. Merecia desligar a mente de tudo por alguns minutos, e tínhamos toda a viagem de volta pela frente. Parte de mim comemorava a missão cumprida, parte de mim perguntava o real significado disso. E eu queria que as duas partes se calassem.

 

Chegamos em Roma algumas horas depois, Mariano e Umberto nos aguardavam ansiosos. A esperança era que, ao conter a volta de Khepri, Giovanna estivesse livre e segura. Mas conversar com os espíritos era alçada de Bento e Derek, logo nos restava aguardar que um dos dois descobrisse a resposta, ou que Enzo nos dissesse mais alguma coisa.

 

O cajado de metal controlador de tentáculos continuava em minha posse e não sabia o que fazer dele. Pensava no quanto era perigoso e por fim achei melhor mantê-lo comigo, por segurança. Durante todo o mês que fiquei hospedada em Roma, o cajado permaneceu escondido dos olhares desatentos e ao alcance de minhas mãos, atrás da cabeceira da cama do quarto de hóspedes.

 

Enquanto estava hospedada na casa de Umberto, me aproximei ao máximo de Enzo, procurei acompanhar seus tratamentos, conversar com as enfermeiras e professoras, acompanha-lo nas atividades ocupacionais. Sua condição me intriga até hoje, tamanha mediunidade combinada com um alto grau de autismo. Ficamos bons amigos de um jeito muito especial, como não poderia deixar de ser. Pelo menos uma vez por mês eu o visito, para que essa interação não se perca. Umberto sempre me agradece feliz, ele se entusiasma com o fato de Enzo aceitar minha aproximação.

 

Xico também ficou na Itália, ansioso por aprender mais sobre tudo que eu sei. Engraçado como algo tão natural para mim desde minha infância é tão mágico para ele. Bento também estava pela Itália, aprendendo mais sobre a Ordem de Aquamarino, mergulhado em livros, estudos, rastreando membros ocultos, investigando mortes suspeitas com a ajuda da Nilo. Sempre que era possível, Xico o encontrava, ávido por mais conhecimento. Não é à toa que esse garoto coleciona diplomas…

 

Derek precisou atravessar o oceano e resolver assuntos pendentes em sua terra. Estava ansioso para rever sua loja, organizar seus negócios e colocar o cristal-prisão rachado de Khepri na sua galeria pessoal de tesouros. Por um lado é bom saber que aquela pedra segue sob vigilância. Às vezes sinto saudades de seu jeito canastrão hollywoodiano.

 

Falta mesmo eu sinto de Amélie… Primeiro ela se engajou em projetos sociais de amparo a mulheres em situações de risco no Uruguai. Entrou para o programa médico de saúde feminina, recomeçou as aulas de defesa pessoal que havia abandonado anos antes. Reencontrou-se nas aulas de boxe, ficou forte, criou casca. Voltou para França dois meses e meio depois, ainda me amando – só Deus sabe como… Tudo o que aconteceu foi um divisor de águas para ela.

 

Há algumas semanas foi até Barcelona me encontrar, enquanto eu cobria o horror do atentado terrorista. Viemos de carro até a província de Badajoz, aproveitando a companhia e o sorriso uma da outra. Se aprendemos alguma coisa com tudo isso foi a aproveitar os momentos felizes mesmo com o caos explodindo em volta.

 

Estou aqui escrevendo enquanto ela faz as malas. Sairá em missão com os Médicos sem Fronteiras para cuidar de crianças em um povoado africano. Quinze dias por lá, no mínimo, antes de voltar para uma das bases europeias de apoio aos refugiados sírios. Nas últimas doze horas, falou cerca de quatro vezes sobre adotar uma dessas crianças. Eu me pergunto quanto tempo resta até Amélie se cansar da minha realidade incomum, até sair em busca de tudo que não posso oferecer. Por enquanto, ela se contenta com toda essa liberdade de decisões, indas e vindas sem ter que pedir permissão ou me convencer. Por enquanto, se delicia com meus segredos e mistérios.

 

Dom Antonio voltou para Europa há oito meses atrás, ainda enlutado por sua Ioana. Ele cuida dos jardins e do pomar dela com todo carinho e, quando o Sol começa a se pôr, mesmo no inverno, senta-se ao lado de seu túmulo, embaixo do velho Sobreiro, para conversar sobre como foi seu dia.

 

Meu avô refez sua rede de contatos romani, chegou a viajar para encontrar uma caravana na Itália, muito mais em busca de informações para mim do que por saudade de seus tempos de menino. Foi bom para ele, mas quase inútil para mim. Muito da nossa cultura se perdeu, principalmente as histórias e lendas passadas verbalmente entre as famílias.

 

Ah! Havia pouco mais de um mês que estava em Roma, ainda sem coragem de voltar para casa, um escritório de advocacia me rastreou na casa de Umberto. O advogado informava ser amigo de longa data da família e responsável por executar o testamento de minha avó. Senhor Savedra avisou que a burocracia ainda me aguardava e já não poderia mais adiar esse encontro com a realidade. Intimou-me a um encontro no mesmo dia.

 

Eu achava que conhecia todos os segredos importantes da família, mas nem minha mãe sabe todos. O testamento, entre várias coisas, me trouxe outro dos baús de madeira escura entalhada da Bába, também trancado. As informações dentro dele me são mais valiosas que todas as joias herdadas: diários, um enorme álbum de fotos da família, o que parece ser um mapa antigo e, principalmente, uma carta do meu Dadi.

 

Vai completar, em breve, um ano da partida da Bá. Ao longo desse tempo tudo que fiz foi estudar todo material que ela me deixou, praticar as magias de seu grimório, investigar meu passado e aprender sobre minha própria vida.

 

Para isso, fui procurar meu pai.

por Elaine Nascimento (Nanny).

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