sexta-feira, 14 dezembro, 2018
“I left my home and family – I’ve pawned all my dreams
Took a second mortgage on my soul to further my schemes
Now my body’s in the pages of “exchange and mart”
Ten pounds or nearest offer for one slightly broken heart.”
 – Skyclad, Belly Full of Emptiness.

O som da boate pode ser ouvido de longe e abafa o som da bengala que pontua meus passos. A fila é grande, mesmo sendo segunda feira. Respiro fundo e me aproximo. O segurança é um homem imenso, bronzeado e com um cabelo pintado de loiro que desafiava a gravidade graças a camadas de um gel espesso que lhe dava um aspecto oleoso e brilhante. Ele me olha e abre um sorriso.

 

-Bento! – ele diz.

 

Eu me aproximo e ele me abraça de forma constrangedora. Eu tento ignorar as pessoas ao redor que nos olham com um misto de espanto e indignação.

 

-Eu nunca vi você por aqui – ele fala em italiano -, achei que não gostasse.

-Não gosto. – respondi. Meu domínio sobre o idioma melhorou consideravelmente no último ano – O Sandro falou tanto que eu resolvi dar uma chance.

 

Conheci o Giovanni e o Sandro pouco depois de chegar à Itália. Eles atuavam como voluntário para a mesma ONG que me tirou da Bahia de Todos os Santos e nos encontramos muitas vezes em meio às ruínas que restaram no epicentro do terremoto. Depois que os últimos destroços foram retirados, passamos a nos encontrar ocasionalmente, a cada quinze dias ou pouco mais, nos sopões comunitários que eu costumo ajudar aos finais de semana. O Sandro era o dono dessa boate na Itália e de outra em Amsterdã.

 

-Veio esfriar a cabeça. Bom! – ele diz e tira um cigarro da carteira, acendendo-o em seguida – O Sandro tá viajando.

Dou de ombros.

-Espero que a boate seja tão boa quanto ele diz, já que não vai estar aqui para eu irritá-lo.

Com o cigarro nos lábios, ele levanta a fita protetora e dá sinal para que eu entre.

-Fica à vontade, amigo.

 

Eu agradeço e dou uns tapinhas amistosos no flanco dele, deixando-o para trás junto com a multidão contrariada que aguarda uma oportunidade de entrar naquela promessa de paraíso mediterrâneo e me vejo em um corredor estreito iluminado com luzes de neon azulado até chegar a um caixa.

 

Uma jovem toda educada me cumprimenta com um sorriso e pede meus documentos. Eu respondo aos cumprimentos, tentando passar na minha voz uma leveza que eu não sinto. Ela confere o passaporte e me entrega um cartão de plástico.

 

Sigo por um corredor lateral e o som martela insuportavelmente meus ouvidos. Há um cheiro de álcool no ar, misturado com aromatizante artificial de pinho que me lembra uma sauna em Salvador, onde era obrigado a ir uma vez por mês para receber instruções do Deputado em  meio a doses de whisky, cocaína e prostitutas. Um arrepio percorre minha coluna e eu o xingo mentalmente.

 

Sinto-me tão inadequado neste lugar que tenho vontade de desistir e voltar. Mas eu passei grande parte das noites dos últimos seis meses enfiado numa biblioteca empoeirada gastando minha visão com aqueles livros modorrentos. Há pouca informação que vale a pena ali. Frequentemente, eu tenho a sensação de que estava lendo guias de curiosidades gerais de milênios passados. Sabe, é interessante, mas sinto que estou deixando o que é realmente importante escorrer como areia entre meus dedos. Repito a mim mesmo que mereço um descanso.

 

Passo pelo lado de uma parede, a fim de melhor observar o ambiente da pista de dança. Há todo tipo de gente ali, turistas excitados, ricaços entediados, dançarinos casuais, universitários curiosos. Um grupo de homens com camisas abertas no peito se exibe para mulheres pouco interessadas que dançam em um ritmo ligeiramente fora da batida da música. Todos ali seguram copos de bebida. Todos precisam de algo em que se apoiar, da mesma forma que eu preciso da minha bengala. Analiso cada um dos rostos ali, vazios, mergulhados em êxtase, apaixonados, empolgados, deslocados, aparvalhados… Parece um caos sem sentido, mas tudo ali é um ritual, todo movimento tem um significado. Lembro-me das palavras de um dos meus guias “Quando se aprende enxergar, é impossível deixar de fazê-lo”.

 

Sinto um calafrio na base da nuca e um incômodo em um canto da cabeça. São sinais inequívocos de presença sobrenatural maciça. Embora eu não os enxergue naturalmente, sei que existe uma legião de espíritos desencarnados ao meu redor. Eles frequentam o mesmo tipo de ambiente de quando estavam vivos, doidos para sentir as mesmas sensações, grudados nos vivos ignorantes, absorvendo sua energia, degustando suas sensações e sentimentos. É algo comum nestes lugares e já me acostumei a isso. No entanto, é o suficiente para que eu erga uma barreira ao meu redor, a fim de evitar a camada mais grossa de assediadores.

 

As luzes piscam sob o comando de um DJ e as pessoas se mesclam às sombras adestradas em um grande e interativo quadro surrealista em terceira dimensão. De um ponto de vista cínico, aquilo tudo é bastante interessante.  Ouço a música eletrônica sem nenhum estímulo. O cheiro de sauna é soterrado por uma miríade de perfumes, mas o odor característico de álcool continua por toda parte, exalando dos copos cheios e dos corpos embriagados.

 

Fico parado ali por algum tempo até que uma mulher me chama a atenção. Ela é loira e tem o cabelo pouco acima dos ombros. Fixo meu olhar nela por instantes, analisando-a, apreciando-a. Os olhos dela se erguem no rosto tingido de azul pelas luzes da pista e se encontram diretamente com os meus. Ela sorri no instante seguinte quando percebe que eu a tenho na mira e então abaixa os olhos novamente.

É a minha deixa.

 

Eu penetro na pista de dança, tentando deslizar por entre os corpos em movimento. Minha vontade é trombar com eles e jogá-los para o lado, mas eu me controlo. “Calma, Bento” virou meu mantra depois que mudei de vida. Não que eu fosse muito irascível no passado. De fato, uma de minhas maiores qualidades era o sangue frio. Perto do Pangaré, por exemplo, eu era um monge. De qualquer forma, depois de oito meses num hospital, aprendi que paciência nunca é demais.

 

Vou me esquivando de ombros e cotovelos protuberantes, de copos e corpos balançando a esmo, de esbarrões e pisadas até chegar milagrosamente intocado ao meu alvo. A mulher me analisa dos pés à cabeça, sorrindo para mim quando seus olhos chegam na altura dos meus.

 

Eu murmuro um cumprimento, que é abafado pelas caixas de som. Então, me aproximo do ouvido dela e repito a saudação. Ela responde em italiano e emenda, em inglês, dizendo que não fala italiano direito. O cheiro dela é como uma brisa de ar fresco em meio ao caos sensorial daquele ambiente.

 

Faço um elogio, gastando meu parco vocabulário e ela responde sem parar de dançar. As pessoas ao nosso redor parecem nos comprimir. Minha vontade é levá-la para algum lugar menos tumultuado e conversar com ela, mas sei que não será possível por enquanto. Tudo é parte do ritual.

 

Então, eu respondo aos movimentos dela e danço. Apesar do ferimento em minha perna que repuxa meus tendões e me obriga a me apoiar em um cano de madeira toda vez que eu ando, meu corpo é leve e fluído. Os homens ao meu redor são tensos demais, duros demais e estão concentrados demais em se exibir, portanto levo uma larga vantagem sobre eles. Eu sou brasileiro, diabos, a música corre por nosso sangue, ainda que alguns tentem negar isso. A dança e o ritmo são nossa herança.

 

Como se minha brasilidade fosse uma espécie de magia, os ritmos de um samba preenchem o salão e logo uma voz feminina começa a cantar versos de Jorge Ben Jor enquanto o piano de Sérgio Mendes vai sendo pontuado por uma batida tecno que soa quase herética.

 

Ali naquela boate barulhenta, lembro de minha infância em Salvador, dançando com meus irmãos e amigos para ganhar dinheiro dos turistas. Minha mãe não gostava daquilo, mas ela também havia me ensinado que o mundo não é feito somente das coisas que gostamos, então eu ignorava as broncas e ia dançar na orla, render trocados que gastava com balas e chocolates. A vida naquela época era um eterno festival de Cosme e Damião.

 

Se eu a tivesse ouvido, provavelmente não teria conhecido os sujeitos que me levaram ao submundo. Literalmente.

 

Um cara se aproxima e abraça meu quadril com um braço forte. Tem a pele quase tão morena quanto eu e um cavanhaque meio castanho. Ele sorri e sussurra algo que parece espanhol no meu ouvido, tentando acompanhar meus movimentos com o corpo.

 

Eu apenas sorrio e aponto para a moça ao meu lado. Ele entende e se afasta falando “Desculpa”. Barulho maldito, talvez ele fosse até brasileiro.

 

“Mas que nada” termina e eu passo os braços ao redor da cintura da mulher. Sou calejado nesses movimentos, mas sinto o coração disparar como se fosse a primeira vez. Ela coloca as mãos ao redor das minhas costas e eu a beijo, um beijo longo e desajeitado, mas delicioso mesmo assim.

 

Sinto um prazer culpado ao me lembrar de Janaína. Outro pensamento invade minha mente e afirma que ela está casada neste momento. Eu me forço a pensar que talvez não, mas sinto que, provavelmente, esta voz está certa. Não me sinto bem, pensando nisto. De repente, estou desanimado e triste e quero ir embora, mas me recordo o que vim fazer ali e dou uma segunda chance. Decido espantar aqueles sentimentos com cansaço. Ficamos na pista mais uma ou duas músicas, meio envolvidos, trocando beijos e ela me puxa até o bar, deixando as amigas para trás. Ela fala com o garçom e se volta para mim, abraçando-me.

 

Descubro que ela é finlandesa, chama Netta Sorvalli, e mora em uma cidade nos Estados Unidos desde criança, mas está fazendo pós graduação em Artes Plásticas em uma Universidade em Roma ou algo assim. Passo a mão pelos cabelos dela, são finos e delicados e tão loiros que parecem brancos.

 

-É lindo! – ela diz segurando o anel que eu trago preso a um cordão em meu pescoço – O que é?

-Água-marinha. – respondo.

-Você comprou aqui na região ou lá no Brasil?

-Não – hesito -, eu ganhei de um velho amigo.

 

O garçom volta com as bebidas. Netta pega um copo e dá uma golada profunda. Eu não quero ficar bêbado, sei o que acontece quando minha consciência se altera e, por alguns segundos me vejo em um dilema. Fora que o gosto do álcool me lembra do hospital, onde passei oito meses após sofrer os disparos. Mesmo no tempo que passei no terreiro, realizando oferendas aos exus que protegiam o local, não me sentia bem em meio às bebidas. Porém, sei que não posso recusar a bebida ou todo clima entre nós será perdido.

 

Então, eu decido correr o risco. Enfio dois dedos na bebida e depois os retiro, despejando algumas gotas no solo, agitando a mão três vezes, invocando espíritos perdidos na região. É um truque simples, mas funciona. Os espíritos atendem o chamado e absorvem o álcool que eu ofereço e depois o álcool que eu bebo.

 

Eu poderia beber a noite toda, poderia beber todo o conteúdo daquele bar e não haveria uma única molécula de álcool no meu organismo.

 

Sinto um pouco de culpa por trapacear deste jeito, mas logo passa quando volto a conversar com Netta. Ficamos mais algum tempo, trocando beijos e tentando manter uma conversa civilizada até ela precisar ir ao banheiro.

 

Eu a acompanho e entro no masculino. É uma cabine individual com um espelho imenso atrás da privada. O chão está molhado e tem plastas de papel  espalhadas por ali. Fico frente a frente com meu reflexo e tento relaxar para esvaziar a bexiga.

 

De repente, a imagem no espelho levanta a cabeça e sorri para mim.

 

“Porra” eu grito enquanto mijo nos meus sapatos.

 

-Mas que coisa feia, Bentinho… – meu reflexo no espelho diz com um tom de escárnio na voz.

-Tá enganando a moça. Tsc tsc…

-Cai fora! – eu falo, recompondo a postura.

-Matando aula para comer a turistinha. Seus guias vão ficar tristonhos.

 

Não tenho certeza de quem é o figura, mas o tempo em que eu me intimidava com esse tipo de coisa já passou. Eu toco o espelho com os dedos da mão direita, a palma virada para cima. É extremamente incomodo quando o reflexo não repete meu gesto como deveria.

 

-Some! – eu dou um comando e sinto o costumeiro calor no meu peito se expandindo. É minha Nzambi, minha herança, um fragmento da energia criadora que deu vida e poderes aos primeiros Orixás.

 

Dura um instante, mas é como se o fundo do espelho se tornasse um poço e o egun despenca em direção a ele, impelido pela Nzambi. Em um piscar de olhos, estou sozinho novamente, contemplando minha imagem, nossas mãos se encontrando na superfície de vidro, um sinal de que o espírito foi realmente banido.

 

Não passou nem um minuto desde que eu entrei, ninguém do lado de fora notou nada. Lembro das palavras de outro mentor “O véu que separa os Mundos é muito fino, mas os profanos se esforçam para não enxergar”. Vou para um canto de onde tenho uma visão do banheiro feminino e fico esperando Netta.  Ela vem em minha direção, toda sorriso e me abraça.

 

São quase cinco da manhã e eu não consegui sequer cochilar. Aproveito que Netta vira para o lado, mergulhada na inconsciência intensificada pelo álcool e pelo cansaço, e levanto da cama.

 

Fico olhando o corpo nu deitado na cama, parcialmente iluminado pelo poste alaranjado na rua. Suas formas se enveredam pelo lençol…

 

Escrevo um bilhete para Netta, explicando onde estou e que não vou demorar muito. Visto uma bermuda e uma camiseta e caminho até a praia. Solto o cordão em meu pescoço e coloco o anel no dedo, sentindo subitamente uma conexão com o mar tingindo de negro.

 

Nilo chega pouco depois de mim, quando o sol começa a surgir no horizonte, tingindo o mundo de rosa e vermelho. É nas horas em que a maré muda que nosso treinamento com os aquamarinos começa. Outrora gloriosa, esta ordem de magos está quase extinta. A maioria de seus membros está morta.

 

Mas isto não é problema para mim.

por Thadeu Fayão.

Tags: , , , , , , , ,
Estamos ON!
Estamos OFF :(