sexta-feira, 14 dezembro, 2018

Dia 09/11 vai começar aqui no canal uma campanha de Deadlands – Oeste Sem Lei. Para que você vá se adaptando aos personagens, vamos liberar semanalmente os backgrounds de cada um deles, escritos pelos próprios jogadores. O primeiro de todos não vem dos EUA, mas de uma terra além. Conheçam Hernando, o bandido Mexicano!

Prólogo

É noite. O som de piano anima o salão de madeira pouco iluminado. Homens empoeirados e cansados bebem whiskey barato enquanto algumas mulheres tentam seduzi-los em troca do pouco dinheiro que possuem. Em um canto é possível notar uma pequena comoção advinda de uma mesa onde quatro cavalheiros jogam uma partida de pôquer.

– Maldito mexicano metido a besta, ninguém possui tanta sorte assim! – levanta-se o homem esmurrando a mesa fazendo cartas (e dólares) voarem.

– Você só pode estar roubando seu filho da puta! – continua o homem enfurecido – Não sei como as coisas são resolvidas lá no cú de mundo que você chama de casa, mas aqui no Texas um ladrãozinho afeminado como você só tem um destino. – uma leve pausa dramática e então sacando seu revólver ele finaliza – A morte.

O pianista então cessa a música e um silêncio sepulcral toma conta do lugar. A atenção de todos se volta para o homem e seu revólver sacado. A tensão cresce em antecipação ao que poderia ser considerado inevitável. No entanto, a pessoa que deveria estar mais preocupada com a situação mantém-se sentada com um sorriso amistoso.

– Cabron, sente-se por favor. Tive sorte sim, mas certamente isso mudará se continuarmos jogando. Tenho certeza que você não gostaria de estragar a noite agradável dessas pessoas manchando o salão com o sangue de um mexicano não é?

– Estamos no Texas rapaz, matar mexicanos é o que fazemos de melhor. Tenho certeza que essa pessoas não se importariam em eu mandar mais uma cucaracha para o inferno. – Finaliza a fala puxando o cão da arma com o polegar.

– Deus é minha testemunha que eu tentei argumentar… Com um suspiro e um movimento ágil com a mão esquerda, o jovem latino saca seu revólver e atira no peito do homem que, sem entender bem o que acabara de ocorrer, desfalece. O som alto e o cheiro de pólvora tomam o recinto. Mas como o recém falecido brilhantemente pontuou: “Estamos no Texas”, e logo que o corpo toca o assoalho do salão o pianista retoma seu trabalho e, como que em um passe de mágica, tudo volta à normalidade.

Dois homens arrastam o corpo para fora do saloon deixando um rastro de sangue no piso de madeira. Uma das garotas corre para pegar um esfregão e limpar a sujeira deixada pela confusão. O mexicano, com a mesma agilidade que sacara sua arma, a guarda no coldre de sua cintura e começa a dedilhar uma melodia em um pequeno violão (vihuela). Com um movimento com sua mão direita chama uma das garotas para perto e é atendido prontamente. A mulher desfila pelo salão requebrando seu quadril enquanto se desloca em direção ao mexicano, senta-se em seu colo e acaricia seus cabelos.

– Senhorita, qual és tu nombre? Pergunta o rapaz com um sorriso.

– Tulip senhor, mas pode me chamar do que preferir. – Responde a mulher sensualmente.

– Desculpe-me Tulip pela confusão que causei, essa não era a minha intenção.

– Nunca o vi por aqui senhor, o que te trouxe a Amarillo?

– Esta é uma pergunta difícil de responder… Se tiver interesse em escutá-la, pegue uma garrafa de whiskey e dois copos para nós. – O latino pega parte do dinheiro que repousava na mesa e entrega à garota. Não demora muito até ela retornar com o que foi pedido.

– Aqui está senhor. – A garota despeja o líquido âmbar em dois copos – Conte-me essa história.

-/-

Meu nome é Hernando Hernandez e minha mãe Rosa, que Deus a tenha, deu a vida para me trazer a este mundo. Seus gritos de dor, acompanhados pelo som melodioso de trompetes, violino e viola de um grupo de músicos que tocavam ao lado de fora da choupana, foram a minha trilha sonora inicial.  

Meu pai Pedro Hernandes, um homem honrado e trabalhador, possuía uma habilidade excepcional em manusear a madeira e empregava tal competência na fabricação das mais desejadas vihuelas (pequenos violões de som mais agudo utilizado pelos grupos mariachis) de San Pepe.  

Desde o grande terremoto que derrubou parte da costa Oeste dos EUA, meu pai realizava experiências com o novo metal feito à base da rocha fantasma. Ele acreditava que o novo metal poderia ser utilizado para melhorar o som dos instrumentos e assim elevar ainda mais sua qualidade. Ele demorou alguns anos para descobrir a forma correta de criar as cordas de metal fantasma mas uma vez quando finalmente desenvolveu o processo pode criar instrumentos fantásticos.

Apesar da perda de sua amada, meu pai nunca se ressentiu de mim pelo ocorrido e sempre foi presente e amoroso, ao seu jeito, nunca deixando faltar alimento em nossa mesa. No entanto, como tudo na vida, esse período de bonança estava fadado a terminar tragicamente.

Era uma terça-feira. O sol a pino castigava a pele e o vento quente e seco aumentava, ainda mais, a sensação térmica. Era possível ouvir o som agudo e melodioso da mais nova vihuela de meu pai sendo testada e afinada.

Foi então que ele chegou. Trajava calças pretas e puídas pelo uso, botas de couro de bico fino com esporas de metal no calcanhar, um paletó igualmente negro e gasto com detalhes bordados em prata em toda a extensão da lapela e uma camisa amarelada pelo suor. Possuía cabelos longos e oleosos. Sua feição era séria e determinada. Em suas costas carregava, transversalmente, uma capa de transporte no tamanho de um violão.

Ele aproximou-se de meu pai, que repousava na varanda, e começou a conversar. Não consegui ouvir o teor do diálogo, mas o som que se sucedeu ditou o início de minha jornada. Um estampido, alto e seco, acompanhado do ralhar dos corvos que fugiam assustados atraiu minha atenção. Percebi imediatamente o que havia ocorrido e corri em direção dos dois gritando enquanto observava a figura de meu pai desmoronando. Em seu peito uma mancha vermelha crescia e sujava sua camisa. Debrucei-me sobre o meu pai molhando-o com as lágrimas que escorriam em profusão pelo meu rosto. Ele tentou falar algo mas não consegui ouví-lo tamanho era meu desespero e então seus olhos perderam o brilho e seu corpo amoleceu. Tentei sacudí-lo acreditando que assim ele recobraria as forças e acordaria, mas, como era de se esperar, nada ocorreu.

Ao meu lado, observando toda a cena, ainda com a pistola sacada permanecia o homem. Ele afagou meu cabelo enquanto eu, desesperado, tentava reanimar meu pai e disse algo em meu ouvido: “Quando estiver pronto, encontre-me no Texas garotinho”.  Ato contínuo, arrancou das mãos moles de meu falecido pai a vihuela e partiu em direção ao horizonte tocando uma triste música no instrumento.

Possuía doze anos quando me tornei órfão de pai e mãe. Sem ninguém para me sustentar morei nas ruas de San Pepe roubando o que conseguia para me alimentar. Meu único bem era a vihuela pessoal de meu pai.

Em um de meus roubos fui pego e espancado até quase morrer por um padeiro mal amado que viu em mim a chance de descontar todas as suas frustrações. Padre Sanchez me encontrou desfalecido e sangrando e levou-me para o orfanato da igreja onde vivi até os meus dezessete anos.

Durante os cinco anos que permaneci no orfanato, refinei minha habilidade com a vihuela ao ponto de me tornar bastante habilidoso. Isto, somado ao fato de ter herdado a beleza do lado de minha mãe (graças ao bom Deus), tornou-me bastante popular entre o público feminino. Meus galanteios desenvolveram-se significativamente à medida que crescia, de forma que, aos quinze anos, as freiras enrubeciam-se facilmente. Deixei meu cabelo crescer como uma constante lembrança daquele que arrancara de mim meu pai.

Padre Sanchez sempre dizia que apesar dos meus infortúnios Deus planejava para mim um futuro brilhante. Que por ter nascido no dia da Santa Virgem de Guadalupe eu era abençoado e que eventualmente meu destino iria mudar. Ele também, aconselhava-me em minhas confissões semanais a abandonar minha vingança e perdoar o assassino de meu pai assim como Jesus Cristo havia perdoado aquele que o crucificaram. Ele também argumentava que se perseguisse minha obsessão acabaria morto pois se os Patrulheiros do Texas não me matassem, as criaturas demoníacas que agora vagam pelo oeste americano certamente o fariam. Infelizmente, nada que meu benfeitor dissesse me dissuadia da idéia de encontrar aquele que acabara com a minha vida e portanto planejei minha fuga do orfanato.

Durante as festividades da Virgem de Guadalupe, meu aniversário, juntei minhas coisas e parti em direção do Texas onde meu destino estava. Demorei cerca de dois meses até alcançar as fronteiras americanas. Durante minha jornada, conheci Hermanita, a filha de um agricultor em Guaibuenas que mui graciosamente aceitou me abrigar em uma noite chuvosa. Acabei por usufruir de mais do que do teto e da comida quente que a família me oferecerá. Hermanita foi meu primeiro amor e por ela quase abandonei meu destino mas a lembrança daquele homem insistia em não me abandonar. Parti sem me despedir pois sei que se tivesse olhado em seus olhos poderia ter perdido toda a minha determinação.

Vaguei pelo território durante muitos anos em busca do assassino de meu pai. Percorri o Texas desde Houston até aqui, Amarillo. Encontrei a Patrulha mais vezes do que considero saudável mas graças ao bom Deus escapei inteiro em quase todas elas.

Sobre os demônios que padre Sanchez alertara, não encontrei nenhum em minhas andanças mas topei com diversas criaturas estranhas e, em sua maioria, agressivas. Se não fosse por Rosa e Hermanita (aponta para os revólveres guardados no coldre amarrado à cintura) talvez não estaria aqui hoje desfrutando de uma companhia tão agradável.

Em busca de conhecimento sobre o assassino, envolvi-me com todo o tipo de gente. Desde pastores que acreditam terem sido tocados pela mão de Deus até coveiros que julgam conseguir conversar com os mortos, mas infelizmente nenhum deles pode me ajudar. No entanto, descobri da pior forma que os bandidos são aqueles que dispõem das melhores informações mas como são muito reservados, apenas as compartilham com seus colegas de profissão.

Foi em busca de informações que me tornei bandido. Meu primeiro trabalho foi roubar uma diligência que vinha de San Antonio com destino a Dallas pela estrada Chisholm. Nosso grupo possuía oito pessoas, em sua maioria criminosos experientes, e o líder era um homem de meia idade cujo nome era James Turnbull. Interceptamos o comboio quando este passava próximo a cidade de Teller. Eu suava em profusão e minhas mãos tremiam, mas não podia transparecer meu nervosismo. Quando o líder deu o sinal nós nos lançamos, em grupos de dois, em direção aos carroções. Os homens tentaram proteger seus pertences mas revidamos com chumbo. Neste dia matei meu primeiro homem.  

Permaneci com o bando de Turnbull por dois anos. Nesse meio tempo ganhei experiência e uma certa notoriedade nas cercanias onde atuávamos. Nossos caminhos se separaram pois o bando iria tentar subir de vida no Colorado e eu só sairia do Texas caso recebesse uma informação que apontasse a localização do assassino em outro lugar. Desde então continuo a vagar buscando,. em todas as cidades por onde passo, conseguir informações sobre o mariachi assassino mas sempre quando julgo tê-lo encontrado ele escapa por entre os meus dedos.

Sempre com a vihuela em meus braços e um sorriso no rosto, percorro o meu caminho incansavelmente buscando encontrar o assassino mas internamente sei que durante essa jornada estou me tornando aquilo que busco encontrar tão avidamente.

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– E então Tulip, o que achou? – Pergunta o mexicano bebendo todo o whiskey em seu copo em um gole só.

– Hernando, pobre rapaz… – deslizando a mão pelo rosto do pistoleiro ela continua – sua vida foi um inferno mas tenha em mente que poderia ser pior. Você poderia ser uma prostituta em um saloon esquecido por Deus em uma cidadezinha de merda como  Amarillo – pontua a voluptuosa mulher com sarcasmo.

– Acho que sua sorte está prestes a mudar pistoleiro. Há coisa de uma semana, um homem que bate com a descrição do assassino que você vem caçando passou por aqui. Eu tive o azar de ter sido a escolhida dele para a noite – diz a meretriz apertando o ombro esquerdo – mas ao final do trabalho conversamos algumas amenidades e ele disse para mim que estava indo para a cidade de Hope no Colorado. Disse que algo grande aguardava por ele lá.

– Você tem certeza Tulip? – Pergunta o jovem pistoleiro mariachi com uma feição séria.

– Sim, eu não me esqueceria de um “cliente” como ele.

– Muito obrigado corazon. Não sei o que posso fazer para lhe recompensar por esta informação tão valiosa.

– Acompanhe-me meu amor. Eu tenho algumas boas idéias sobre como você poderá me retribuir – segurando a mão de Hernando, Tulip se levanta e o conduz escada acima em direção dos quartos.

– E lá vamos nós novamente – pensa o jovem mexicano enquanto acompanha a sedutora meretriz quarto adentro.

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